Pindorama é uma daquelas cidades que trazem já no nome a marca espiritual e histórica que lhe marcaria o tracejado às vezes informe do Tempo. Diz-nos a tradição literária de nosso romantismo indigenista que a palavra Pindorama quereria significar “Terra das Palmeiras” ou, mais objetivamente, “Lugar das Palmeiras.” Teria sido este justamente o primeiro nome que os índios de fala tupi teriam dado ao nosso Brasil, a grã-Pindorama.

Há, porém, uma Pindorama-mirim: uma brotação de palmeiras imperiais ou nem palmeiras – macaúbas – que viceja como município desde 21 de março de 1926, mas que, durante alguns séculos, foi também habitada por índios, índios que não chamavam este solo roxo de “Terra das Palmeiras.” Contam-nos os professores Brasil Procópio de Oliveira e Pascoal Toratto que o território que atualmente compreende o município de Pindorama foi habitado durante alguns séculos por índios caingangues, até que, na segunda metade do século XIX, em 1864, no auge da Guerra do Paraguai, tropas imperiais passaram pela região e, não se sabe bem como e porquê, entraram em conflito com os índios, que acabaram dizimados. Uma “rapa de tacho” deles teria sobrevivido e migrado para as terras que hoje compreendem o município de Tupã.

Meio século depois, em 1907, especuladores imobiliários resolveram comprar terras na região, pela qual passariam os trilhos da Estrada de Ferro Araraquarense, antevendo ganhos com povoações que necessariamente as ladeariam, sobretudo nas terras cortadas por ribeirões caudalosos, como o São Domingos (que hoje, infelizmente, nós chamamos simplesmente de “rio”).

Um destes especuladores ou corretores vendeu, por sua vez, as terras à gente mais pragmática, à gente que viera construir o Novo Mundo em terras tropicais: a imigrantes, sobretudo imigrantes italianos. O “primus inter pares” entre eles foi Ferdinando Maximiliano Motta, um milanês de velha estirpe, que comprou extensas glebas nos dois lados do São Domingos do coronel Argemiro da Silveira.

Para cá, então, mudou-se com sua esposa e filhos e chamou à obra de abrir as matas seu amigo e compadre Thomaz Lainetti. Ano e meses depois, chegavam aqui outras duas famílias: Pozzetti e Rodrigues da Costa. Foram estas quatro famílias que, conforme relata a tradição oral, deram início aos dois ajuntamentos de casebres que tornaram-se vila e, quando feito casas, tornaram-se distritos, até que os barões do café que aqui já residiam na década de 20, decidiram, para o bem do seu status, que queriam proclamar a terra em que pisavam os pés município. Houve uma campanha pró-emancipação que, por aprovação parlamentar (através do nosso ardoroso lobbie, que não se furtou a comprar um colar de pérolas a uma amante de um juiz que teria facilitado o processo), acabou por integrar as duas bandas (os dois distritos, “o lado de cá e o lado de lá”: Areia Branca e Pindorama) que já eram uma coisa só, um povo só.

Daí em diante, constituímos um povo regularmente altivo, um misto bem arranjado de quatrocentões sertanejos, empreendedores “turcos” (os sírio-libaneses), honrados italianos, velhos e novos cristãos portugueses, espanhóis andaluzes, austríacos tiroleses, negros de ascendência banta e sudanesa e alemães menos alourados. Pindorama cresceu, enricou e foi se constituindo enquanto polis neste misto de raças que deram a cor cultural da cidade — tão cheia de sotaques cantados e ásperos, de religiosidade puritana e laxa, de culinária rica e frugal.

Até os fins da década de 50, a “Pérola da Araraquarense” foi um município rico e próspero. O café, em verdade, dourou de verde nossa terra roxa, logo escondida no núcleo urbano pelo paralelepípedo de granito e pelo pedrisco pixeado. O caminho da História ciclicamente traçou nestes tempos seus rumos e trouxe para cá os vapores da Revolução Industrial: o capitalismo local se irrigou de trabalho honesto e rapidamente catapultou nossa economia, então basicamente agrícola, para o mundo das máquinas, porquê nós precisávamos “de ferrovias, fábricas, minas e motores que não sabem fazer nem administrar” (Hannah Arendt). No entanto, abalos de ordem política e social (macro e micro) inseriram o município na balbúrdia nacional: Revolução de 30, Guerra Civil de 32, Estado Novo, 64…

O movimento econômico ascendente caiu no buraco, como foi parar nos buracos as leiras de café que cederam lugar à cana-de-açúcar. A partir dos anos 60, a cana-de-açúcar converteu-se na cultura agrícola dominante, provocando o êxodo rural de centenas de famílias, cujos descendentes hoje se avolumam em quase 16 mil almas unidas e reunidas na cidade, no distrito de Roberto e no grande bairro do Jardim das Palmeiras. Empresas (pequenas, médias e grandes) apareceram e desapareceram, surgiram e sumiram, fundiram e fugiram; contudo, apesar das crises, constituí-mo-nos hoje em cidade de pendor firmemente comercial e industrial. Desde então, o cambalear nacional é rigidamente o municipal na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Nossa independência pretérita erra na falsa autonomia hodierna.

Porém, já nos voltamos outra vez aos trilhos. Não os trilhos da maria-fumaça fumegando carvão e nervos pelo caminho de solavancos planaltinos, mas voltamos aos trilhos dos ideal transcendente ma non troppo que, no fim do túnel, deixa já perceber a lâmpada graciosamente concedida por um Prometeu cristianizado, porquê aqui “a cruz é que incita o progresso que grita”.  Todas estas metáforas, todas estas alegorias, todos estes símbolos para dizer: estamos olhando para o horizonte, na intersecção entre céu e terra. Há muito por fazer e há por aqui muita gente que faz!

Somos boa gente boa, que quer viver em paz.

A História continua sendo escrita. Continua…